quinta-feira, 22 de outubro de 2015

SeCostados


Passado quase um ano sobre o último texto que publiquei neste blogue, só os resultados das eleições legislativas de 04-Out-2015 trouxeram factos que me levam a nova reflexão; deixo-a aqui e agora – longa, mas tão curta quanto podia ser uma análise crítica que tinha de ser abrangente.
Começo com um gráfico que reúne os principais resultados eleitorais desde 1980 (sem os resultados de partidos pequenos e efémeros). Ajuda-nos a colocar alguma perspetiva e dinâmica nas coisas, já que a visão instantânea, fotográfica é sempre redutora.
 
Votantes e Abstenção
Deste gráfico ressalta o crescimento quase constante do número de inscritos para votar, ficando um milhão abaixo da população recenseada. Isto implica que, sobretudo, os menores de 18 anos sejam perto de um milhão. Parece pouco, quando a população dos ensinos pré-escolar, básico e secundário são mais de um milhão e meio (PORDATA, 2013). Portanto, existe uma fundada suspeita que o número de eleitores inscritos está acima da realidade – quiçá por se manterem nos cadernos eleitorais um milhão ou mais de cidadãos portugueses eleitores que já não o são de todo.
O gráfico revela ainda que o número total de votantes tem oscilado; erra pouco quem afirmar que desde há 20 anos votam nas eleições parlamentares 5,5 milhões. É certo que há uma redução consistente, mas suave, na última década (2005-2015); mas a redução em 2015 pode dever-se sobretudo à emigração de 200 mil pessoas desde 2011.
Combinando os números dos eleitores e dos votantes resulta que a abstenção não terá crescido tanto quanto se diz no espaço mediático; dito de outro modo, há indícios credíveis de que se os cadernos eleitorais forem atualizados, a abstenção pode ter estabilizado nos 35%. Se assim for, os portugueses não estarão a distanciar-se da política tanto quanto dizem os comentadores.
De resto, a abstenção no Reino Unido e nos EUA em eleições comparáveis também ronda e excede os 40%: no RU foi 40% em 2011; e 33% em 2015, mas estas eleições tiveram grande afluência pelo receio de empate; nos EUA, desde 1970 que não é inferior a 40% e já chegou a 50%. Estes países são muito relevantes porque têm sistemas eleitorais com uma ligação forte entre eleitos e eleitores. Note-se que as fracas restrições à posse de armas nos EUA devem-se à forte ligação entre eleitos e eleitores. Quem defende que a elevada abstenção revela que o sistema eleitoral português é mau e tem de mudar, ou que a política é especialmente má por cá, tem de rever a sua posição. Mas trazer algum realismo aos que defendem que a abstenção é um sintoma de doença da democracia portuguesa e que a doença reside no sistema eleitoral é matéria para outra reflexão.
Este ponto é importante, porque revela que é relativamente estável o número de portugueses (5,5  milhões) que se interessa por votar e pelo governo – e é provável que não varie muito o número de portugueses (3,5 a 4 milhões) que se mantém alheado do voto e dos destinos do governo.
Adiante especulo sobre as explicações para este alheamento. Mas para já importa notar que não se pode considerar que a abstenção se deve a falta de escolha: concorreram 17 partidos a estas eleições – mas apenas 7 partidos (ou 5 forças políticas, considerando as coligações) elegeram deputados.
Resultados eleitorais
Penso que só o BE e o PAN têm razões para se sentirem contentes com os resultados das eleições de 04-Out-2015: o BE, porque duplicou os votos e os deputados; e o PAN, porque conseguiu entrar no parlamento pela primeira vez. Os demais partidos estarão
- tristes mas não muito, porque perderam a maioria absoluta que tinham coligados (PSD e CDS, PaF) mas ainda ganharam as eleições; e o PSD tem mais deputados eleitos do que o PS;
- muito tristes, porque não tiveram maioria absoluta nem ganharam as eleições (PS); ou porque nem sequer entraram no parlamento, ficando atrás do PAN (PDR/M.e Pinto, e Livre/R.Tavares);
- aliviados, porque mantiveram os 450 mil votantes do costume (PCP).
Em termos simples, 2 milhões preferiram quem lhes prometeu manter a prudência e várias restrições às despesas e às obras públicas, até virem melhores dias (PaF). E 3 milhões votaram em vários partidos que rejeitaram tais prudência e restrições, usando as expressões “fim da austeridade” e “mudança” (PS, PCP e BE). Isto é, 25% do povo preferiu forças que não prometem “leite e mel”; e 38% preferiu forças que prometem. Mesmo depois de estar bem à vista que prometer “leite e mel” na Grécia (com o apoio destes partidos por cá) apenas piorou a situação grega e trouxe novo resgate ainda mais duro do que o que estava em curso – aplicado pelos que garantiram que a austeridade tinha acabado. É importante registar estes factos, pois é muito frequente a crítica de que os políticos mentem ou fazem promessas que não podem cumprir; mas só alguns são criticados por isso.
Este fenómeno já era conhecido dos gregos antigos, que notavam que a demagogia (prometer “leite e mel” para recolher apoios) era o maior perigo da democracia; disse Aristóteles (Política): “A principal causa das mudanças é, nos estados democráticos, o atrevimento dos demagogos”; mais à frente “A democracia de Heracléia também deveu a ruína a seus demagogos”; ainda “quase todos os tiranos são demagogos que conseguiram crédito junto ao povo atacando os nobres” (troque-se “nobres” por “ricos” ou “bancos” e a frase é atual); por fim, “Se houver rendas suficientes, não se deve, como fazem os demagogos, distribuir à arraia-miúda o dinheiro que sobrar” (a possibilidade do crédito nas economias modernas esvaziou a palavra “sobrar”: se faltam recursos ao Estado para distribuir, contrai-se dívida, e alguém pagará no futuro – e não faltam demagogos por aí a dizê-lo e a fazê-lo).
Portugal não será diferente dos demais países, quanto à preferência da maior parte do povo por demagogos, que depois desiludem na governação. Mas seria de esperar que a bancarrota, o fracasso da aventura grega e a desilusão com a prática dos demagogos levasse os iludidos a rejeitar as campanhas de promessas de “leite e mel”, pelo menos quando houvesse campanhas contrárias a essa linha; quem faz campanhas sem prometer “leite e mel” arrisca mais a derrota do que quem promete “leite e mel”, pelo que é mais provável que esteja a dizer a verdade – que é aquilo que quase todos os eleitores dizem que falta. Mas se a maioria dos eleitores não rejeita as promessas de “leite e mel”, está a sinalizar que é a prometer “leite e mel” que se ganham eleições e a garantir sucesso aos demagogos. Como se podem depois queixar de terem sido enganados?
Nenhum partido ou coligação teve maioria absoluta. É especialmente importante sublinhar este ponto, pois os dirigentes do PS e do PaF, e até o Presidente da República (PR), insistiram muito na vantagem de sair destas eleições uma maioria absoluta – poucos duvidaram que se visava uma maioria absoluta do PaF ou do PS e nenhuma outra. Desde logo, a maioria dos eleitores desprezou este apelo: nem se votou em maior número (caso do RU) nem se concentraram votos num polo. Os portugueses, abstendo-se, ou votando e dispersando-se, criaram um parlamento em que só dois partidos pequenos (BE e PAN) estão satisfeitos com o resultado, e só dois partidos (PCP e BE) ganharam com o resultado.
Pode interpretar-se esta conduta dos portugueses como indicando que o PaF deve ser moderado pelo PS; ou desejando que o PS se coligue com o PCP e o BE. Entretanto, uma sondagem da Intercampus revelou que cresceu a preferência dos portugueses pelo PaF (sem chegar à maioria absoluta) e, muito menos, pelo PS e pelo BE (TVI, 18Out/20h). Parece haver entusiasmo à esquerda, mas a vontade de consenso é maior ao centro; se houvesse uma clara deslocação de preferências dos eleitores para o PS, Costa podia reclamar que a sua ideia de se aliar ao PCP e ao BE era aprovada pelo povo. Mas não há.
Há outro plano mais abstrato de interpretação dos resultados eleitorais, que opera no âmbito psicológico dos eleitores. Os portugueses esperam que os políticos melhorem as suas vidas; é nesse sentido, de fé num Estado paternalista e em políticos-tutores, que se pode dizer que a maioria dos portugueses é de esquerda. Dos discursos marxista-leninista (“os ricos que paguem a crise”) e social-democrata (“tem de se reduzir as desigualdades”) resultam promessas de um Estado que cuida de todos, e políticos que só servem o interesse público (e acordo universal sobre o que isso é). E tantos portugueses têm fé nestes discursos – os mesmos portugueses que se queixam do Estado por tudo e por nada, na tradição da constante lamúria de que falava Gil Vicente na “Romagem dos Agravados”, ou da inveja de que falava Camões em “Os Lusíadas”. Combinando estes aspetos tipicamente portugueses com a tendência das massas seguirem os demagogos em democracia obtém-se um futuro sombrio.
Costa, o revisionista
Noutros tempos, o vencedor das eleições avançaria de imediato para a formação do governo e, sem maioria no parlamento, trataria de fazer cedências para ir aprovando as leis e o Orçamento de Estado em especial. Desta vez, algo mudou: o líder do segundo partido mais votado (PS), Costa, iniciou de imediato diligências para formar um governo com mais dois partidos (PCP e BE), de modo a ter apoio maioritário no parlamento; e chegou a declarar a media estrangeiros e ao PR que ele estava em melhores condições para formar um governo estável, assente num acordo entre esses três partidos (PS, PCP e BE) – mas não revelou o acordo que disse existir, e o presidente do PS declarou que o acordo só seria divulgado após a indigitação do primeiro-ministro (SIC, 20-Out/20h). Costa disse que representava a vontade de mudança que a maioria do eleitorado, que votou naqueles três partidos, desejará.
Este sumário descreve a situação objetivamente, mas pouco ajuda a percebê-la, porque lhe faltam muitos elementos e pormenores que estruturam as situações e as dinâmicas políticas em concreto; e, como diz o ditado inglês, “the devil is in the details”.
Primeiro, que disseram todos antes das eleições?
Costa andou anos na Quadratura do Círculo a dizer que era contra um Bloco Central, e cumpriu o que disse ao romper o acordo que Seguro tinha feito com o PSD e o CDS sobre o IRC (de caminho, mostrou que não é pessoa para cumprir pactos em vigor e de que discorda – importante facto a reter). E tem sido muito crítico do Tratado Orçamental e da prudência na condução das finanças públicas. Costa nunca quis admitir outro cenário que não fosse a vitória do PS e por maioria absoluta; e sublinhou que não se coligaria com o PaF após as eleições – nunca sugeriu sequer que admitia coligar-se com o PCP e o BE, e poucos admitiram essa eventualidade depois dos debates nas TVs entre estes partidos.
O PCP e o BE há décadas que andam a dizer que o PS é de direita (“são farinha do mesmo saco”, disse Jerónimo em 15-Set-2015), pelas políticas que pratica e por se aliar ao PSD e ao CDS nas políticas de fundo. O PaF mostrou que tinha abertura para negociar compromissos com o PS; já não parece possível que o PaF possa negociar compromissos com o PCP ou o BE.
Na substância, o PaF quebrou a tradição das campanhas eleitorais constituírem um leilão, com os partidos a prometerem mais do que os concorrentes: o PaF não prometeu benefícios nem melhorias imediatas nos rendimentos; só desejou que elas venham a ocorrer a prazo. Já o PS, o PCP e o BE prometeram que, com eles no governo, aumentariam os benefícios que o Estado disponibiliza, que tratariam de reduzir os impostos para a classe média e alguns grupos, e contestaram a subordinação às restrições financeiras inerentes à inserção na Zona Euro (o PS mais próximo de as aceitar, mas querendo discuti-las; os demais rejeitando-as em absoluto).
Cabe ainda notar que, pela primeira vez, um partido fora do Governo (PS) apresentou um programa apoiado num modelo macroeconómico. Tem natureza keynesiana, algumas das suas medidas foram discutidas, mas não os seus pressupostos: um deles é a taxa de crescimento anual do PIB de 2,6% de 2016 a 2018 e 3,6% em 2019 – média que os governos do PS de 2005 a 2011 nunca conseguiram (nem antes de 2008), e que não ocorre há 20 anos; há 15 anos que não se atinge um crescimento anual do PIB de 2,6%. Se é polémica a orientação keynesiana – moderada como é o caso – para conseguir impulsionar o crescimento do PIB, aqui e agora, uma taxa média de 2,8% de 2016 a 2019 devia ter merecido muito mais escrutínio e debate do que mereceu. Parece que muitos comentadores não perceberam este facto, por se terem contentado com o facto de haver um programa com números, ou por não os perceberem. De facto, o PS propôs um programa otimista, pouco credível.
Segundo, “mudança” e “austeridade” querem dizer o mesmo para os três (PS, PCP e BE)?
Não. “Austeridade” para o PCP e o BE significa não aumentar e cortar os benefícios que o Estado dá aos cidadãos. A adoração marxista pelo Estado em abstrato (já que, em concreto, merece as críticas mais violentas destes partidos) é uma expressão da ideologia coletivista e transpersonalista que os move. Já o PS reconhece a necessidade da austeridade, como revelam os dirigentes que falam em “austeridade excessiva” e “austeridade cega”; há, então, uma austeridade que não é excessiva ou não é cega, o que permite compromissos com quem defende prudência e restrições nas despesas do Estado.
Quanto a “mudança” passa-se o mesmo. E pode acrescentar-se que a inspiração marxista-leninista (assumida) do PCP e (encapotada, mas revelada nos objetivos e nos instrumentos) do BE significa que estes partidos visam uma mudança de regime, porque não se reveem no Estado de Direito nem na democracia liberal, que é formal. Não só contestam frequentemente a natureza formal em que assenta o Estado de Direito, como só falam em “Estado Social” (a menos que alguns direitos, como a presunção de inocência, lhes deem jeito e votos), criticam a democracia e defendem que visam alcançar uma “verdadeira democracia” e a “democracia económica”; de resto, a sua linguagem e a sua dualidade de critérios revelam intolerância e anunciam revanchismo – e onde governaram ou governam marxistas-leninistas foram intolerantes e revanchistas. Numa metáfora, o marxismo-leninismo, como o islamismo e os fascismos, veem o Estado de Direito e a democracia liberal como um autocarro: usa-se para chegar onde se quer e depois larga-se. Já o PS visa adotar uma política keynesiana, de estímulos à procura para acelerar o crescimento económico, a qual se enquadra no sistema capitalista e na democracia liberal (mas a experiência mostra que é uma política equivocada – veja-se Portugal de 2005 a 2011 – pois assenta na ideia de que gastando hoje em consumo final dinheiro que não há, isso vai fazer com que haja mais dinheiro amanhã para consumo e investimento – pode acontecer, mas não é na nossa economia, sem soberania monetária, muito endividada e dependente do exterior).
Tendo o PS abandonado há décadas o marxismo como fonte doutrinária, é bizarro que considere que a mudança que visa tem algo em comum com a mudança preconizada pelo PCP e pelo BE. Ou melhor: há socialistas (p.ex. Assis, Gama e, suspeita-se, até Soares, cujo silêncio tem sido ensurdecedor) que percebem as diferenças doutrinárias e que a coincidência no uso de certas palavras (sobretudo “austeridade” e “mudança”) é tática e circunstancial, e não traduz um espaço de compromisso ou acordo, do qual possa emergir um governo estável e consistente.
Enfim, os próprios dirigentes destes partidos têm afirmado e reiterado que visam evitar que o PSD e o CDS voltem a governar; apresentam-se como uma coligação negativa, e para inverter o que foi feito.
Terceiro, como fica o PS no governo e na oposição?
Aliado ao PCP e ao BE, o PS depende deles para tudo; viabilizando condicionalmente o PaF, o PS controla o PaF. É mais racional para o PS viabilizar o PaF do que aliar-se ao PCP e ao BE: com o PAF, tem poder de influência na governação; com o PCP e o BE, depende totalmente deles para governar.
Viabilizando o PaF, Costa não passa de deputado, sujeito a risos e piadas dos seus pares, por ser um derrotado que tinha condições ímpares para ganhar; ou pode ter de se sujeitar a arranjarem-lhe um emprego "dourado" algures, ficando a dever um importante favor a alguém. Aliado ao PCP e ao BE, Costa pode ser primeiro-ministro e passarem a dever-lhe favores a ele. Logo, Costa nada tem a perder e muito a ganhar. Costa pode dizer que não busca o poder a qualquer preço; mas Costa não convence, depois de ter derrubado Seguro por este ter ganho por “poucochinho”, e tendo Costa agora perdido, com um dos piores resultados de sempre do PS, não se demite e ainda tenta ser primeiro-ministro.
O PCP e o BE têm todo o interesse em que Costa se torne primeiro-ministro depressa e sem acordos escritos: não é difícil perceber que Costa se move por ambição pessoal, pelo que chegado a primeiro-ministro fará tudo para não cair (até para tentar passar a ideia de estabilidade e de compromisso). O BE e o PCP podem aproveitar-se disso para impor as suas exigências, que Costa tem de aceitar, senão eles abstêm-se (ou votam contra!) e Costa acaba por cair. Além disso, um acordo escrito pode criar mais oposição a Costa no PS; e as delongas podem permitir que se organize essa oposição. E se Costa perder no PS, o PCP e o BE perdem o poder que Costa – e só Costa – lhes concedeu.
Costa é habilidoso e, ainda que turvado pela ambição, planeará oferecer cargos aos dirigentes do PS mais hesitantes, que eles não poderão recusar, para conseguir ver aprovada a sua linha de ação no PS. Já no poder, dará benesses com utilidade eleitoral e que possa reclamar terem sido ideia sua (e não do PCP nem do BE), para obter a popularidade que permita alcançar uma maioria absoluta daqui a um ou dois anos. Talvez mais do que o BE, o PCP esperará a “mudança” de Costa a prazo (ninguém se esquece que Costa já traiu Seguro…), e daí que mostre pouco compromisso agora, queira exigir de Costa muito e depressa, e se prepare para essa “mudança”, de que obviamente Costa culpará o PCP ou o BE.
Veremos se, dentro de poucos anos, o PS não vai perder ainda mais do que as eleições de 2015, apenas para satisfazer a ambição pessoal de Costa. Suspeito que as benesses vão trazer problemas a tão curto prazo que muitos portugueses vão aceitar uma relação de causa-efeito entre as benesses e a crise seguinte, e culparão o PS que apoiou Costa, mais ainda do que culparam o PS que apoiou Sócrates.
Quarto, quem acredita e quem não acredita num acordo entre o PS, o PCP e o BE?
Arrisco-me apostar que ninguém – sublinho, ninguém, nem entre o “povo de esquerda” (como Alegre o batizou) – acredita num acordo PS-PCP-BE. Nenhum dos partidos envolvidos fala em aliança nem coligação, e o PCP até evita a palavra acordo. Ninguém concretiza qual o prazo que visa durar, nem o âmbito. Dizem os envolvidos que se está no bom caminho, mas não há factos; há fugas de informação que parecem “balões”. Parece haver acordo em algumas medidas mais simbólicas do que substantivas, que se concretizam no primeiro mês, e diz-se que as questões de fundo que dividem o PS do PCP e BE (relação com a UE e o Tratado Orçamental, integração na NATO e posição face à dívida pública) são ignoradas (ignorar programas e questões de fundo, com significativas implicações práticas e correntes, para que três partidos formem um governo é algo que nunca pensei ver defendido por um dirigente político de primeira linha; mas Costa fê-lo e reiterou-o desde 04-Out).
É importante registar que há numerosos militantes e simpatizantes do PS que não acreditam num acordo entre o PS+PCP+BE e, presumivelmente, num governo; destaco T.Santos, A.Beleza, Assis, S.S.Pinto, Carlos Silva, Zorrinho, Jaime Gama, Vitorino (“acredito quando vir!”), Soromenho Marques e Marçal Grilo. Relevante, especialmente por falar de tudo, é o silêncio de Mário Soares (“resolve-se com inteligência!”). E tão significativo como isso, é que não há figuras destacadas do PS (fora do círculo que vive à sombra de Costa) que defendam a linha de ação de Costa; podem atacar o PaF, mas não chegam a dar a cara pela defesa de Costa, e muito menos uma defesa com argumentação robusta.
Vários jornalistas e comentadores revelam fé na existência desse acordo, mas mais pelo seu desejo pessoal de não ver o PaF outra vez no Governo, do que por acreditarem na viabilidade de um governo PS+PCP+BE. Até os jornalistas-comentadores do Grupo Impresa – os verdadeiros lideres da Oposição antes de 04-Out, que levaram Costa ao colo o mais que puderam e que acabaram por perceber que foi um esforço duro e inglório – revelam pouca confiança ou mesmo desconfiança em Costa.
Evidentemente que o PaF tem um incentivo para desvalorizar as posições de Costa. Mas com tantas dúvidas, com origem em tantos setores, não se pode dizer que o PaF tenha uma posição sectária.
Uma última nota: os chefes militares têm conseguido manter algum poder de veto sobre as políticas dos governos (por exemplo, a desmilitarização do mar, que se impõe desde a revisão constitucional de 1982, tem sido tentada por vários governos e vetada por dirigentes da Armada). Como reagirão perante um governo sustentado por partidos que rejeitam a NATO? E como reagirão esses partidos, que defenderam a resistência dos chefes militares às políticas de cortes nas dotações orçamentais, se esses militares agora resistirem aos cortes que é previsível que venham a ocorrer com um governo PS+PCP+BE, pois não custa prever que cortará na defesa para aumentar a despesa em benesses a dar pelo Estado?
E agora?
O PS, o PCP e o BE arvoraram-se na vanguarda dos defensores da Constituição. Seria apenas coerente que agora defendessem a sua aplicação sem quererem “queimar etapas”. Ao visarem “queimar etapas” dão mais um sinal de que a Constituição e a democracia são, para eles (como Lenine defendia), um instrumento tático para alcançarem o seu objetivo estratégico de criação da sociedade socialista. Não é novidade para quem observa em pormenor estes partidos marxistas-leninistas, mesmo que evitem os títulos “queimados” pela História.
Por isso, o PR deve indigitar Passos Coelho (PSD) para primeiro-ministro, de modo a que os sucessivos passos constitucionais sejam dados e fiquem registadas as posições de cada um. Nunca é de excluir que as pessoas, confrontadas com as consequências das suas decisões e ações as repensem e mudem, por estarem a fazer “bluff” ou por falta de ânimo; o que pode traduzir-se em não chegar a haver acordo PS+PCP+BE, em o PS não aprovar o acordo que Costa lhe apresentar, ou em o programa do Governo do PaF passar no parlamento.
Cumpridos todos os passos e chegado Costa a primeiro-ministro, é inevitável:
- o aumento de despesas do Estado (correntes e de capital – isto é, obras públicas, tendo presente que em 2010 vários manifestos de esquerda pediram mais “investimento público” e que o bloco PS+PCP+BE rejeitou, por exemplo, a proposta do CDS de suspender a construção do TGV, http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/bloco_de_esquerda_e_pcp_rejeitam_suspensatildeo_do_tgv.html) para satisfazer as exigências do PCP, do BE e dos “lobbys” (todos perceberão a fragilidade de Costa e tratarão de a explorar);
- o aumento do défice do Estado e o aumento do défice externo, neste caso, porque o maior consumo vai trazer um aumento grande das importações; a seu tempo, aumentará também a dívida pública, pois não só não há nada mais valioso para privatizar e amortizar a dívida pública (exceto prédios), como o PS, o PCP e o BE falam em nacionalizar ou inverter as privatizações em curso;
- o aumento das taxas de juro da dívida pública e as pressões da UE para controlar os défices e cumprir o Tratado Orçamental;
- as atitudes quixotescas do PS+PCP+BE e a colisão com os parceiros do Euro, à custa dos portugueses.
Quando começar a faltar o dinheiro, Costa – como Sócrates – anunciará que “o mundo mudou”, culpará outros pelas desgraças em curso, tentará fazer novas eleições contando que as benesses que andou a distribuir lhe tragam a maioria absoluta e, seja quem for que então venha a governar, voltará a ter de aplicar cortes no Estado e nos rendimentos, e a consequente recessão. E a esquerda falará dos crimes da banca e da UE, e nem admitirá a presunção de inocência…
O que posso eu fazer? Para lá de não votar à esquerda, e deixar registadas as minhas reflexões, pouco posso fazer; talvez poupar mais, para sofrer menos quando – se Costa chegar a primeiro-ministro – dentro de um ou dois anos chegar um novo aperto, quiçá um novo resgate. E dizer a quem culpa a banca e fatores externos pelas nossas crises que era absolutamente previsível aquilo que estaremos então a passar, e que a culpa cabe aos 75% de portugueses que se alheiam da política, que ignoraram a experiência grega recente ou que preferem confiar em demagogos e utópicos do que na realidade dos factos e na prudência.
Aplicando os critérios de justiça que tantos do povo de esquerda proclamam, os 25% que não querem embarcar nesta aventura de governo PS+PCP+BE deviam ser dispensados de pagar a fatura quando ela vier. Mas não faltará quem entre esse povo, nessa ocasião, invoque direitos e justiça, para fugir a esses custos e deixá-los aos demais. Foi assim por três vezes em 40 anos, pode ser assim de novo e em breve – a menos que Costa não chegue a primeiro-ministro. Isso é que era bom!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Estado de chocrates

Há umas quantas pessoas a dizer nos media e nas redes sociais que o país está em estado de choque, e que é um choque como nunca houve: deve ser um estado de chocrates.
O primeiro choque, agradável aliás, foi ver tantas caras convertidas ao Estado de Direito Democrático em tão poucos dias. Quando ainda há dias não hesitavam em considerar culpados tantos que não foram sujeitos a julgamento nem sequer foram acusados, quando davam por certas as especulações, e quando exigiam que outros extraíssem consequências sobre casos por julgar, é bom saber que afinal são pela presunção de inocência. Ainda há dias queriam prevenir tudo e mais alguma coisa, privando, sem hesitar, as pessoas das suas liberdades – veja-se Jorge Sampaio que defendia em 2005 a inversão do ónus da prova no combate à corrupção (http://publico.pt/politica/noticia/jorge-sampaio-defende-inversao-do-onus-da-prova-apenas-em-materia-fiscal-1234825); agora reconhecem que as liberdades e a presunção de inocência devem ser preservadas. Como é reconfortante saber que, afinal, os formalismos do Estado de Direito Democrático não são meras abstrações jurídicas – afinal, são importantes (e dão jeito).
O segundo choque, de espanto, e também sobre tantos daquele coro, foi o de se concentrarem nos formalismos da detenção e não no conteúdo das suspeitas. Tantos discutiram a fuga de informação que levou as TVs ao aeroporto, mas deixaram passar em branco que Sócrates tinha feito o check-in um dia antes e não embarcou de Paris para Lisboa; porque faria isso? Mas, sobretudo, diversos juristas, jornalistas e comentadores indignados com as fugas de informação olharam para o lado das implicações de um primeiro-ministro que terá praticado atos de corrupção; disto não falaram. De repente, certos profissionais das cenas deixaram de fazer cenários e prospetiva; nem analisam as eventuais implicações das acusações.
O terceiro choque, ainda de espanto: havia um coro generalizado pela necessidade de combater a corrupção e de prender pessoas, por haver uma presunção generalizada de que a corrupção permeava a política, e que “a Justiça” era ineficaz perante a corrupção. Ainda há uma semana “a Justiça” estava a atuar bem no caso dos Vistos Gold, onde os mesmos não duvidavam da corrupção nem das culpas dos suspeitos e de muitos outros. Mas logo que “a Justiça” atuou sobre um político importante, com suspeitas de corrupção, muitos do coro suspeitam que “a Justiça” está a atuar mal e demais.
O quarto choque, só para alguns, é certo, foi a surpresa por não se verem todos os amigos e apoiantes de Sócrates a dizer de imediato: “eu conheço-o; sei a vida que leva; não acredito que haja qualquer fundamento nas acusações; eu acredito que é inocente.” Só vários dias depois apareceram algumas caras a dizê-lo, e depois de várias pessoas terem notado esse silêncio nas redes sociais. Que Soares o tenha dito, faz logo lembrar o livro “Contos Proibidos” e o encontro de Soares com o seu amigo socialista e condenado Craxi exilado na Tunísia. Há sempre pessoas que se consideram acima da lei; outras, nem distinguem o bem do mal na conduta própria, atribuindo o mal sempre a outros – situações que parece ajustarem-se a Soares e a Sócrates. Só quem acha que Soares é o “pai da democracia” pode desculpar as suas afirmações junto à prisão de Évora; seguindo a metáfora, também há pais que maltratam os filhos...
O quinto choque, também limitado, foi ver tantos que se indignaram contra as declarações de Cavaco Silva sobre os seus rendimentos, pelo insulto que isso seria aos cidadãos com fracos rendimentos, mas não aplicaram o mesmo sentido crítico a Sócrates – aquele que quando Portugal estava perto da bancarrota estava preocupado com a sua imagem nas TVs; ou aquele que exibia um estilo de vida que não escondia ser luxuoso, ainda por cima inconsistente com os rendimentos que o próprio alegava ter. Espanta, ainda, que tantos que dizem preocupar-se muito com a corrupção, e que procuram mostrar-se tão bem informados, não se tenham questionado antes, e agora evitem “o elefante na sala”.
O sexto choque, também agradável, foi ver que o aproveitamento político da situação ficou aquém do que muitos esperávamos, sobretudo da tralha socrática; foi muito bom ver que só Soares e poucos mais apareceram com teorias da conspiração – veremos se o dique aguenta. Confesso que gostava de ouvir Vara a este respeito: quantas caixas de robalos compõem €20 milhões? Ou a unidade de conta é caviar?
Não me choca o que está a ocorrer com Sócrates; nem me choca uma eventual condenação de Sócrates em tribunal.
Não duvido que Sócrates é culpado de alguma coisa.
Pelo menos, é culpado de levar Portugal à beira da bancarrota, e poucos políticos em Portugal têm esse palmarés; outro é… Oops… Soares. Porque não criou as condições para travar ou inverter o crescimento do endividamento privado. Por aumentar demasiado o endividamento público. Por desorçamentar, através da criação de empresas públicas, institutos públicos, fundações públicas e PPP, que acabaram sempre por onerar os contribuintes, porque tinham sempre o Estado como fiador. Por uma cultura de imagem e propaganda, isto é, de ilusões, assente em obras e anúncios de obra, sem querer saber como isso viria a onerar os contribuintes. Por se promover à custa dos contribuintes. Quiçá, literalmente.
Está ao alcance de todos avaliar a obra de Sócrates. E haverá sempre franjas que apreciarão tal obra. Como há sempre quem defenda ditadores e maus políticos: por mais maldades que tenham feito, haverá sempre algo que fizeram de bom a alguém e esse alguém estará reconhecido.
Mas o que está agora em causa é a relação de Sócrates com a sociedade numa matéria muito bem delimitada e técnica; e a sociedade delega em determinados especialistas a capacidade de avaliar em profundidade, os factos e condutas que reprova. Criticar os julgamentos na praça pública e querer saber tudo do processo não é só uma inconsistência – é perverso, porque só agrava tais julgamentos.
Neste momento, quem tem de saber é quem está no processo judicial; e quem tem de saber sabe. Quem não tem de saber, não sabe, não se deve meter, e deve deixar funcionar os mecanismos da administração da justiça. Quando muito, quem queira ajudar, que ofereça os seus préstimos ao advogado de defesa ou use a liberdade de expressão para defender Sócrates e afirmar a sua inocência (algo me diz que terei pouco eco nestas sugestões…).
Temos de ser compreensivos com todos os que estão a enfrentar a possibilidade de um dia poderem ter de reconhecer que votaram num corrupto, e que o defenderam, ao mesmo tempo que invetivavam contra a corrupção; e é óbvio que o problema pode alcançar os dois milhões e meio de portugueses (votantes de Sócrates). Muitos recusar-se-ão a enfrentar a realidade; há sempre alguns fanáticos. Para os demais terem de reconhecer um erro tão grande, e tão avisado, é muito duro; afinal, elegeram-no e também são responsáveis pela quase-bancarrota em que Sócrates deixou o país.
Mas também temos de ser compreensivos com aqueles que nem gostaram nem gostam de Sócrates, mas que estão em choque com o processo e a situação de Sócrates, por outras razões: intuem que isto não ajuda nada António Costa, e que pode levá-lo a perder as eleições e a manter-se a atual maioria, e a generalidade das suas políticas (incluindo o corte ou fim dos benefícios extraídos do Estado).
É uma manifestação do nosso tradicional sebastianismo: como disse Jorge Dias, o português “[…] no seu intimo alberga uma certa esperança de que as coisas aconteçam milagrosamente.” Não são poucos os que vivem na ilusão de que a mudança de governo vai trazer milagrosamente o fim da austeridade ou o Estado a gastar como antes. E não aprendem, apesar de serem recentes e estarem bem à vista os resultados da França de Hollande, que era anunciada como a referência da mudança. Só é de desejar que sejam uma minoria. Talvez uma vela em Fátima consiga esse milagre. Eu prefiro uma vela pelo milagre do realismo. Vou lá hoje.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Santo António (Costa) ou Santo Costa

Os media portugueses não aprenderam com o erro de “casting” que foi a promoção de um político bem-falante e que passa bem nos media (José Sócrates), mas que, em pouco anos, levou Portugal à beira da bancarrota. Por isso, estão a repetir o erro: há anos que andam a “canonizar” António Costa e agora estão a apoiar a campanha dele para chegar ao poder no PS e no Governo.
A campanha dos media a favor de Costa é sofisticada e tem duas vertentes:
1 – Os media dão-lhe todo o espaço que ele queira para se afirmar, de acordo com a agenda dele. No topo do apoio está a participação na “Quadratura do Círculo”, com a oportunidade semanal de defender as posições em que ele se sente forte; seguem-se as entrevistas simpáticas. Depois, as peças noticiosas sobre Costa são factuais ou em tom positivo. Costa trata de só se expor publicamente em situações simpáticas: comemorações, inaugurações, discursos políticos.
2 – Os jornalistas e editores não lhe colocam questões difíceis (como pedir-lhe que escolha só entre opções más) e omitem ou desvalorizam tudo o que o possa manchar. Por exemplo, poucos associarão Costa às longas greves do lixo ocorridas em Lisboa no fim de 2013: ele não aparecia, os jornalistas não o procuravam e o assunto era tratado pelos media numa base factual e com algum desfavor para os trabalhadores – até o director-geral de Saúde veio recomendar aos lisboetas que não colocassem lixo na rua; sobre a causa nada disse. Poucos jornalistas colocaram esta questão aos comentadores; e poucos destes escolhiam opinar sobre o tema. Desafio os meus leitores a darem exemplos de casos em que, em situação comparável, os media não tenham perseguido e pressionado os políticos responsáveis para resolverem a situação com brevidade; e em que a maioria dos comentadores tenha sido acrítica da situação. Já durante as Festas de Lisboa de 2014, mais problemas com acumulação de lixo nas ruas só conseguiram garantir que algum vereador desse a cara às câmaras, acusando os serviços municipais de negligência – Costa, nem vê-lo. De novo, desafio os meus leitores a darem exemplos de casos em que os media se contentariam com isto e não perseguiriam o presidente da autarquia responsável até ele fazer alguma coisa ou reconhecer a sua responsabilidade. E a respeito dos ataques pessoais e de violência física entre os apoiantes de Seguro e de Costa, e da contestação a Costa no PS, alguém consegue saber dos factos com algum pormenor pelos media e sem recorrer às redes sociais? E quando noticiaram, praticaram, como com outros políticos, a repetição em numerosos noticiários e ao longo de dias (“martelar”)? E em que meio de comunicação já algum dos meus leitores viu algum jornalista ou comentador a referir que Costa é um “jotinha”? E quantos noticiam quantos mandatos concluiu Costa?
Assim têm os media construído um santo. Esta prenda dos media dá muito jeito a Costa, que se calhar nem ousaria desejá-la, quanto mais pedi-la.
Desafio os meus leitores a indicarem mais exemplos do tratamento favorável, sobretudo por omissão do que é desfavorável, que os media dão a Costa (como deram a Sócrates e não dão a mais ninguém).
 
Talvez com surpresa, os media estão a descobrir que há contestação a Costa dentro do PS. Mas continuam a tentar limitar, ou compensar, todos os elementos que prejudicam a imagem de Costa.
Assim, que político partidário em campanha podia esperar que as TVs e os comentadores ignorassem um artigo demolidor de Vasco Pulido Valente (http://www.publico.pt/politica/noticia/o-vacuo-1659832)? Ou o manifesto de militantes socialistas, que equipara Costa a Sócrates? Mas deram grande destaque a um manifesto de outros quatro militantes, cuja defesa da urgência serve Costa objectivamente.
Costa veio há dias dizer que há uma terceira via (outra...) para o país, que não passa pelos aumentos de impostos nem pelas reduções de despesa: o crescimento económico. Que político partidário em campanha podia esperar que as TVs e os comentadores não “martelassem” o vazio desta afirmação, ainda mais vinda de um ex-ministro de um Governo que não conseguiu maiores taxas de crescimento do que as actuais? Ou que não “martelassem” a comparação com semelhante posição de Seguro há pouco mais de um ano? E não custava nada; mas só nas redes sociais foi denunciada a demagogia de tais posições (também por mim: http://proa-ao-mar.blogspot.pt/2013/04/a-alternativa.html#comment-form).
Como Seguro, Costa também descobriu “a alternativa” à política do actual Governo… O populismo e a demagogia de Seguro e de Costa (idênticos aos de Sócrates) correspondem ao modelo que A. Downs propôs em 1957: políticos que apenas buscam o poder para o saborearem, e não políticos para realizarem um projecto político. Mas é destes que Portugal necessita e os portugueses anseiam.
 
Costa tem as qualidades que o tornam atraente para os media: fala bem, é persuasivo, tem boa presença nas TVs, parece maduro e experiente. Aos media não interessa a substância do que fez e do que faz, nem das políticas que defende; bastam os anúncios e a imagem (construída por alguém); e que estas passem. Os media acham que o estilo e a imagem de Costa é melhor para ganhar eleições do que a de Seguro; só por isso o canonizam.
Costa e os seus apoiantes sabem disto e, racionalmente tentam aproveitar a oportunidade que lhes caiu no regaço. Sugerem que os adversários políticos temem Costa, justamente porque ele pode conseguir uma maioria absoluta. Nisso têm razão.
 
Mas o sentido do medo é este: Costa é o regresso aos défices e endividamento descontrolados (leia-se: despesismo) e à política de culpar os outros pelo que corre mal (leia-se: irresponsabilidade) a que Sócrates nos habituou. E o despesismo e a irresponsabilidade são praticados por alguns, beneficiam muito alguns, mas acabam sempre por ter de ser pagos por todos. Para a larga maioria da população, as relações benefícios/custos do despesismo e da irresponsabilidade são más; mas é a maioria que leva os políticos despesistas e irresponsáveis ao poder, com a absurda fé de que se falam bem governarão bem; isto é, se são bons na tribuna, devem ser bons a decidir as questões colectivas – o que tem uma coisa a ver com a outra?
Seria de esperar que o sofrimento causado pelas políticas que nos afastaram da bancarrota tivesse feito a maioria perceber que é de evitar repetir as políticas que nos levaram à beira da bancarrota; porque aí chegados, para de lá sair, só com sofrimento. Mas cada vez há mais sinais de políticos e eleitores (não só na faixa do PCP e do BE, dos quais não se espera outra coisa) que pensam que já se pode voltar a aumentar as despesas públicas; o sinal mais claro e frequente é a vontade de não querer pagar a dívida (ainda por cima, quando antes defendiam mais despesas e investimento públicos, e endividamento; e achavam que o endividamento das PPP e as rendas do sector energético não eram problema – até tinham vantagens para estimular o crescimento… e reduzir o endividamento externo…). O que sugere que não perceberam a crise que sofreram e que, a fazer-se o que desejam, podemos todos voltar a sofrer (talvez em menor grau) de novo e a curto prazo.
 
Por isso, é um desígnio nacional derrotar Costa e Seguro. Para isso, é necessário fazer sentir ao povo que votar neles – em graus diferentes, mas não muito diferentes – conduz à mudança, sim, mas a mudança para o que de errado e mau se fazia até 2011. O controlo internacional apertado impedirá que Portugal volte a chegar à beira da bancarrota; mas não impedirá que haja desvios perigosos, na sequência dos quais ocorram pressões externas para “voltar ao bom caminho”, através de políticas recessivas e contra-cíclicas (leia-se: políticas duras e sofrimento). Estas oscilações, de que só usufruem alguns, ainda que suportados por uma maioria absoluta nas próximas eleições, acabarão por condenar todo o país a uma década ou mais de estagnação, a acrescentar ao período perdido de 2001-2013.
 
É difícil convencer socialistas (que se distribuem por todos os partidos, como Hayek explicou em 1944) que o futuro do país está em perigo se o Estado fizer despesas acima dos impostos que os cidadãos toleram pagar – socialismo é, por definição, intervenção e despesas do Estado – e que os défices são sempre pagos, mais tarde ou mais cedo, pelos impostos. Mas já era tempo de, pelo menos, a maioria dos socialistas (de todos os partidos) e dos portugueses perceberem que enquanto houver défice e se não querem pagar mais impostos, então terão de aceitar cortes nas despesas, e que é irresponsável pretender que não. Provavelmente, só uma derrota de Costa e Seguro vai forçar o PS a perceber que tem de mudar, mas no sentido da responsabilidade e do controlo das despesas públicas, até porque há muito espaço para poder diferenciar-se substantivamente do PSD e do CDS-PP.
E também era tempo de os portugueses fazerem sentir aos políticos que a derrota eleitoral deve implicar o seu afastamento da vida política, e a duração desse afastamento deve ser um múltiplo do ciclo eleitoral proporcional aos fracassos que tiveram e aos custos que causaram ao país. Com o fim das subvenções vitalícias ficámos obrigados a aguentar com políticos fracassados no activo, porque não têm emprego, ou fonte de rendimento, alternativos fora da política.
 
Mas temos de começar a regenerar a política por algum lado, e começar por derrotar Costa e Seguro, e fazer-lhes sentir que estão a mais, é um bom princípio para regenerar os partidos e o sistema político, porque actua sobre as pessoas, o activo fundamental do sistema. Só depende de o povo realmente querer mudar.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Vertigens


Já ninguém se espanta quando aparecem nos media alguns militares de Abril a defender a mudança de Governo; nem sequer quando sugerem, ou defendem, o recurso a métodos anti-democráticos. A emoção pelo aniversário do “25 de Abril” (25A) e a deselegância duma associação privada em condicionar a aceitação de um convite do parlamento a poder discursar no plenário numa sessão solene criaram mais um pretexto para tal espetáculo – com uma novidade: o apelo público e explícito de Mário Soares à sublevação militar, isto é o uso da força das armas por oposição ao funcionamento normal das regras constitucionais, para afastar o atual Governo.

As ameaças e os apelos, explícitos ou sibilinos, de tal sublevação têm sido noticiados pelos media, mas pouco mais do que os jornalistas e comentadores que são contra o Governo as valorizam; e menos ainda lhes dão eco. Afinal, por muito fraca que seja a nossa democracia, ninguém que afaste as suas emoções, ou que observe as experiências ocidentais, encontra uma boa justificação para que os militares mudem o Governo, ou tutelem a democracia. Até porque, pelo menos numa fase inicial, os militares tomariam o poder e poucos (exceto entre os militares…) creem que governariam melhor. Falar em sublevação assusta os incautos e revela imaturidade democrática, tantas vezes nos mesmos que se dizem defensores da democracia e da Constituição (saberão o que defendem?).

O PREC revelou que muitos, quiçá a maioria, dos militares de Abril, só visavam a mudança do Governo por outro a seu gosto; o incómodo, e até o inconformismo, com os resultados das eleições de 1975 e seguintes estão documentados, embora quase esquecidos. Quando dizem que “não foi para isto que fizemos o 25A”, além de se arrogarem serem donos da mudança (embora já tenham admitido que não prepararam “o dia seguinte”), revelam que apenas visavam colocar no poder dirigentes a seu gosto, e não os que o povo escolhesse em eleições livres. As críticas que fazem aos “políticos” são estranhas vindas de cidadãos que usaram as armas na política e que foram e são políticos (hoje, talvez só pela intervenção pública que fazem); as críticas que fazem à juventude dos atuais políticos (com idades na ordem dos 50) é estranha de quem conduziu o país há 40 anos (com 30-40), e cometeu erros tão onerosos e duradouros como as nacionalizações. Os militares, como cidadãos, têm todo o direito de não gostar dum Governo ou das suas políticas; mas se são democratas devem respeitar a diferença e atuar, como os demais cidadãos, dentro das normas constitucionais e de convivência em democracia. Ela não se reduz a votos; mas ninguém tem legitimidade para representar o povo, e ainda menos impor-lhe as suas visões, sem se submeter à escolha popular – insubstituível por sondagens e ainda menos por projeções (por mais que alguém as qualifique de “científicas”).
Em cima disto, Soares, um político que deu passos decisivos para afastar os militares da política em nome da democracia (em 1975 e em 1982 e seguintes) apela agora aos militares para mudarem um governo legítimo de que ele não gosta. É grave que um ex-presidente da República (PR) e ex-deputado, da III República (nacional e europeu), faça tais apelos, que contradizem em absoluto a letra e o espírito da Constituição. É inconcebível um democrata dum país ocidental a fazê-los.

De facto, Soares deu muitos sinais de não ser um democrata exemplar; mas os media, ao invés do que fazem com muitos outros cidadãos, fazem questão de não recordar as falhas de Soares. Recorde-se a sua proximidade de Mobutu e Savimbi. Como maltratou um guarda da GNR em serviço quando era PR. Como sempre desconsiderou a valia de adversários políticos, logo ele que sempre foi um intuitivo que não estudava dossiers. E que dizer dos factos descritos e provados por Rui Mateus no livro “Contos Proibidos” (caso único de edição esgotada em dias sem mais edições; quem a comprou?), que configuram uma grave falta de transparência, esquecidos pelos que acham que a corrupção política é um fenómeno recente e devida a políticos jovens? E por que razão os media colaboram no “silêncio” de Rui Mateus? Será que os processos revelados por Rui Mateus não acabaram e continuam vivos no financiamento das suas fundações? E por que razão os media não recordam tudo o que Soares afirmou quando, como primeiro-ministro, procurou, por duas vezes, fazer sair Portugal de crises de excesso de endividamento externo? A manifestação da Alameda foi uma posição corajosa contra outra ditadura (desta feita, comunista) que se aproximava; mas está claro que Soares estava mais a afirmar-se do que a lutar pela democracia. Por tudo isto e muito mais, os recentes apelos de Soares aos militares apenas refletirão perda da vergonha que terá tido de deixar provas de posições que ele intui (intuitivo, sem dúvida, é!) serem exemplos de intolerância.
 
A seletividade dos media abrange todas as (poucas) vozes que contestam publicamente Soares: elas têm fraco ou nenhum eco. Se há exemplo de “pensamento único”, é a opção mediática de elevar Soares ao pedestal de “pai da democracia”, sugerindo que ele só é contestado por franjas descompensadas ou sectárias. (A “canonização” mediática de António Costa pelos media também está em curso.)
 
Soares e alguns militares de Abril parecem convencidos de que os portugueses lhes têm uma dívida eterna, que os coloca acima dos demais cidadãos, como tutores do país. Falta-lhes humildade e tolerância para merecerem os títulos de democratas e os pedestais onde foram colocados. Está à vista que colocar vivos num pedestal tem um problema: podem sofrer de vertigens e cair; só um esforço titânico dos media e das suas redes de apoiantes pode evitar a queda.
 
Não há democracia sem democratas. Por isso, é bizarro que a sociedade portuguesa, com culpas dos media, considere como “heróis da democracia” cidadãos que não são democratas exemplares.

PS - Já estava referenciado, por outras razões. Mas depois deste post...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Portugueses: liberais e socialistas. Ou, querer “sol na eira e chuva no nabal”!

Marx, Lenin e os seus seguidores (mais ou menos conscientes disso) conseguiram uma vitória indisputável: os autoritarismos e as ditaduras de esquerda tornaram-se aceitáveis, enquanto se estigmatizou a ideologia que ama a liberdade, o liberalismo. A linguagem corrente e das massas (grupo que inclui muitas pessoas com formação superior) e a maioria dos media refletem esta situação: os autoritarismos e as ditaduras são aceitáveis desde que venham embrulhados numa linguagem de defesa do ambiente e dos trabalhadores, ou do combate às desigualdades. Quem defenda a liberdade e a inerente responsabilidade – o liberalismo – é mal visto e estigmatizado. E quem estigmatiza acha-se informado e sofisticado.
Por isso, não há quase partidos liberais, sobretudo na Europa, e os que existem têm reduzida expressão eleitoral. Mas todas as pessoas dizem que querem respeito pela sua liberdade e mais liberdade…
Há mais paradoxos: poucos dos que defendem uma larga intervenção do Estado em todos os setores da vida coletiva aceitam restrições às suas condutas – só visam as dos demais; e são contra os aumentos de impostos que não sejam decididos por governos das suas cores.
Também é fácil constatar a assimetria entre os aumentos e as reduções de despesas públicas: os primeiros não sofrem contestação, mas as segundas sim; porém, as despesas do Estado são pagas pelos impostos e as massas não gostam de pagar impostos nem de os ver aumentados. Há alguma maneira de conciliar estas posições? Para muitas pessoas, há: no PREC, diziam “os ricos que paguem a crise”; hoje há mais sofisticação e diz-se que se corte nas PPP, no BPN ou se acabe com a corrupção. Por outras palavras, “cortem a outros (distantes) mas não a mim”. É outra versão da máxima “not in my backyard” (NIMBY) que tantas pessoas praticam.
Naturalmente que há em tudo isto muita “avestruz” e ignorância dos números e das realidades concretas, bem como a ligeireza de quem não tem que tomar decisões, e que confia que cobrir o discurso com os chavões da “justiça” e da “igualdade”, vence o argumento e, com o discurso bem-sonante, tem o bónus de ficar bem visto perante os demais (as massas).
De facto, as duas faces do liberalismo são a liberdade e a responsabilidade. Mas esta, ao invés do que dizem muitas pessoas, causa repulsa, pois impõe custos: num ambiente hedonista, as responsabilidades, exceto para recolher louros, são para os outros; poucos assumem em pleno as suas. Assim, não é difícil perceber por que tantos diabolizam o liberalismo.
Todavia, ao contrário de todas as outras ideologias, o liberalismo é a que tem mais longa vida garantida. Claro que continuará a haver comunistas e fascistas, e haverá sempre defensores de ditaduras e autoritarismos (alguns com a convicção de estarem certos, e não só por ganharem com isso). Mas a generalidade das pessoas quer e exige liberdade, e tendo-a saboreado não se conforma com a sua perda e com o regresso a regimes autoritários, ditatoriais ou totalitários; todos os dias observamos exemplos pelo mundo fora, mesmo quando os povos buscam ordem nas suas comunidades. Por isso, diz-se mal do liberalismo, mas são aquelas ideologias que são varridas para os caixotes do lixo da História – e é o liberalismo que sobrevive. Afinal, é a única ideologia que toma e aceita a natureza humana como ela é, sem querer criar outra (e muito menos um “Homem Novo”) nem sujeitá-la aos coletes-de-forças dos conceitos ideológicos, e que reconhece o papel essencial que a liberdade tem na realização e na dignidade da pessoa humana. Claro que as pessoas preferem usufruir da liberdade deixando as responsabilidades ao Estado, ou a outros quaisquer; mas a formação moral e a pressão das circunstâncias leva a maioria das pessoas (não todas) a aceitar e assumir os impactos positivos e negativos das suas decisões (a responsabilidade). É esta realidade que revela a superioridade e longevidade do liberalismo: sempre se criticarão todas as ideologias, pois todas têm defeitos e implicam custos; mas os custos de algumas são tão altos que acabam por ser abandonadas, sobrevivendo só uma, a menos má. Só nos países ricos e entre os povos que se aburguesaram, ou converteram ao hedonismo, se diaboliza o liberalismo; os povos que não têm liberdade – e que se libertaram dos comunismos, dos fascismos e das ditaduras e autoritarismos – procuram-no sem hesitar. Passa-se o mesmo com a democracia, e também por ser mais confortável procurar que sejam outros a assumir as responsabilidades inerentes à liberdade de cada pessoa.
Em Portugal o problema é especialmente grave pela atitude generalizada de dependência face ao Estado, visto como um “saco sem fundo” e um decisor ideal, capaz e obrigado a resolver todos os problemas. É revelador que até o mais destacado dos revolucionários que implantaram o liberalismo em 1820 (Manuel Fernandes Tomás) tenha sido apelidado de “pai da Pátria”. Para demasiadas pessoas, o Estado é um “paizinho” ou uma “mãezinha” que protege os indefesos e bondosos cidadãos menores – mas “adolescentes”, pois querem apoio, enquanto estão sempre a revoltar-se contra a autoridade. É bizarra esta dualidade, que está na base da diabolização do liberalismo (além da vitória da diabolização do liberalismo há que reconhecer às esquerdas a banalização da alcunha, o neoliberalismo, designação sem doutrina, cuja conotação, sem outro conteúdo, serve de código para identificar quem se opõe ao liberalismo).
É grave que, hoje, em Portugal, quando ninguém pode dizer que ignora o excesso de despesas e endividamento públicos, que serviram sobretudo a classe média e por ela estão a ser e serão pagos, se persista na ilusão de que se podem aumentar as despesas públicas apenas porque há direitos sociais – como se ninguém os pagasse. Pode insistir-se na ilusão do chavão de “os ricos que paguem a crise”, e até se podem expropriar os ricos para eliminar o défice num ano – mas o défice volta mais tarde, porque deixou de haver ricos a pagar impostos; isto é, depois dum breve intervalo, a classe média volta a pagar por inteiro as despesas públicas, porque elas não desceram e já não há ricos a pagar impostos. Por isso, é mais inteligente reduzir as despesas públicas e tratar de criar mais ricos – em vez de lamentar o aumento de milionários, que pagam impostos.
Com menos despesas públicas podem baixar-se os impostos e os rendimentos disponíveis para a classe média, a qual ganha assim liberdade para satisfazer os seus desejos e necessidades. Todos desejam que se baixem os impostos, mas poucos aceitam que isso só pode ocorrer com menores despesas públicas.
 
Tenho pouca fé que bastantes portugueses se libertem do paternalismo com que encaram o Estado; e ainda menos que abandonem a inveja, que creio ser o verdadeiro motor que anima a maioria dos portugueses quando polvilham os seus discursos com “mais igualdade” ou a “luta contra as desigualdades”. E não é só por Camões destacar a inveja dos portugueses, usando a palavra para concluir “Os Lusíadas”. É que estes discursos sempre revelam pretender-se ter (coisas) que outros têm e não repartir o que os discursadores têm com os que não têm – que é outra forma de reduzir as desigualdades. Além disso, é raríssimo encontrar alguém que, ante questões concretas em que está envolvido/a, defenda a igualdade – ao invés, trata-se quase sempre de destacar os factos e fatores diferenciadores, e para benefício próprio. E o imparável crescimento de oportunidades para ter coisas ou usufruir de serviços garante que haverá motivos duradouros para haver desigualdades. Por fim, um fator mais subtil é a procura que as pessoas têm por outras parecidas para formar família, o que ajuda a cristalizar desigualdades de rendimentos; com a moda socialista das quotas, só falta estabelecer números máximos de famílias com cônjuges com idênticas profissões ou rendimentos (altos…) e até incentivos a que, por exemplo, operários/as formem família com gestores/as de empresas, criando as condições para “mudar as mentalidades” e criar um “Homem Novo”… J

 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Preocupações


Por estes dias, em relação à situação do país, preocupam-me duas coisas em especial: a intolerância à solta; e a inclinação de tantos para não corrigir, e até repetir, os erros que nos trouxeram à bancarrota.
 
A intolerância revela-se pela incapacidade de discutir sem adjetivar ou sem cair no insulto pessoal, ridicularizando e até diabolizando os que pensam de modo diferente. A ideia de que quem “não pensa como eu/nós” só pode ter más intenções, ou estar conluiado mais ou menos conscientemente com malfeitores é um perigoso sinal. Confrontados os intolerantes com estas análises, a sua conduta vem a confirmá-las, insistindo em que “a realidade” o prova – e tantas vezes são os mesmos que rejeitam a ideia de que “não há alternativa” à austeridade... Não se limitam a admitir que têm uma visão, entre várias possíveis, do mundo; sentem-se autorizados a classificar moralmente outras visões e considerá-las mal-intencionadas. Todos emitimos juízos de natureza moral; mas é perigoso, porque abre um caminho, que, por exemplo, a Inquisição deixou gravado na História, por se concluir “na fogueira”. A criação do Estado de direito visou também remover a carga moral das discussões políticas, e a decisão pelo uso da força.
Há muitas pessoas nas esquerdas com esta conduta. Isso ficou bem patente, por exemplo, a propósito dumas declarações de Isabel Jonet em Dez-2012, e após a morte de António Borges, há dias.
Mas também há pessoas assim na direita nacionalista e não-democrática em geral. Têm menos expressão mediática do que as esquerdas, mas manifestaram-se a propósito da morte de Saramago e encontram-se nos blogues e nas redes sociais.
A reforma dos colégios militares conseguiu combinar intolerantes de ambos os lados, embora no caso das esquerdas talvez se trate de aproveitar mais uma “arma de arremesso” contra o Governo; se não for isso, só o corporativismo pode explicar a crítica das esquerdas a uma reforma que reduz desigualdades e subsídios públicos a quem não é desfavorecido (claro que o melhor era acabar de todo com eles).
Felizmente há muitas pessoas de esquerda e de direita com quem se pode ter um diálogo, que não acham o mundo digital, que aceitam diferentes visões do mundo, e até aceitam ser convencidas de teses alheias. Com estas aprende-se e enriquece-se, porque têm algo a acrescentar ao debate, e acrescentam.
 
Em qualquer caso, não estou a sugerir, de modo nenhum, que a intolerância ou posições intolerantes devam ser proibidas ou de algum modo vedadas. A liberdade de expressão deve prevalecer, até porque a sociedade moderna pode conviver com este tipo de intolerância; esta tem longa tradição entre nós, mas será mais superficial do que parece e também refletirá as circunstâncias da contração do Estado. Muita desta intolerância é retórica e construída para realizar previsões de turbulência e subversão sociais; como o tempo passa sem essas previsões se concretizarem (assim como as de que a austeridade ia matar a economia), e o que surge são sinais de sucesso do ajustamento, cresce o desespero e o esforço (cada vez mais duro e inglório) para as realizar…
 
A eventual repetição das asneiras revela-se a respeito da reforma do Estado. Parece-me clara a razão de só agora se estarem a efetuar cortes duradouros nas despesas de pessoal e pensões. Primeiro, porque os cortes duradouros obrigam as pessoas a mudar de vida; as pessoas gostam de mudar, mas não gostam de ser obrigadas a isso. No Estado, é hábito encarar os cortes como coisa temporária: os servidores do Estado conheciam a contenção real, depois a nominal, e sabiam que mais tarde ou mais cedo um governo aumentaria salários ou avançaria com os “pet-projects” que estavam em “banho-maria”. Os atuais cortes nominais podem conseguir alterar a cultura interna do Estado. Segundo, porque uma reforma que demore anos a planear dá mais oportunidades aos que perdem com ela para encontrarem meios de a “torpedear”; quando ouço alguém a dizer que “faltam estudos” para realizar uma reforma fico logo desconfiado que o que falta é tempo para algum interesse sectorial a desvirtuar. Terceiro, é claro que sem a troika, Portugal estaria na bancarrota; mas ninguém quer perder os benefícios que recebe do Estado – e ao mesmo tempo quer pagar menos impostos!... – o que atrasa as reformas.
Tocou-se, portanto, no “ponto sensível” de todos. Daí que eu tenha muitas dúvidas que tratar logo em 2011 de reduzir pessoal e pensões (os aspetos da reforma do Estado agora em causa) só ia conseguir “envenenar” o ambiente político, o que me parece que inviabilizaria o Acordo de Concertação Social alcançado. Basta ver o que está a custar a Paulo Portas elaborar e divulgar o “guião da reforma do Estado”. É fácil dizer o que se devia ter feito em 2011, pois não há maneira de saber como teria sido. E também não se pode provar que não haveria Acordo de Concertação Social – mas se ele já foi difícil então, é razoável supor que seria inviável agora com todos os parceiros sociais contra o Governo.
Mas enquanto, coletivamente, não estivermos decididos a reduzir as despesas do Estado, não vamos reduzir o défice (porque todos queremos pagar menos impostos). E se não reduzirmos o défice, podemos precisar de mais apoio externo (segundo resgate). Se não fosse a terrível humilhação internacional e a dureza do que ele exigirá, o novo resgate era sedutor, pois pode ser a única forma de mostrar com clareza aos que não querem perceber que há que cortar despesas públicas. O problema maior é que os que não querem ver são os que passam com pouco sofrimento por tal situação; porque os que mais sofrem não formam lobbys nem têm capacidade de fazer pressão nos media.
A maior preocupação vem da conduta dos dirigentes do PS, que dão sinais consistentes de oposição aos cortes a realizar, e de vontade de inverter os cortes já realizados, nas despesas públicas. É o discurso usual para ganhar eleições em Portugal (estamos em período eleitoral). Mas era desejável que os portugueses tivessem coletivamente aprendido que foi essa conduta, com êxito eleitoral (prometer aumento de despesas com o dinheiro dos contribuintes), que nos sobre-endividou e trouxe à bancarrota; e que nos vai manter a ela “encostados” se não reduzirmos depressa o défice público. Claro que para não reduzir despesas e evitar enfrentar lobbys (pois opor-se-lhes tem relevantes custos mediáticos e de popularidade), o PS fala sempre em crescimento, coisa que quase não conseguiu de 2005 a 2011; aliás, só em 3 trimestres se superou o recente aumento de 1,1% do PIB. Esta conduta faz prever que o PS, para conseguir voltar ao Governo, voltará a prometer tudo e o seu contrário aos eleitores com o dinheiro dos contribuintes. E não sei se os portugueses não vão deixar-se seduzir pelos discursos bem-sonantes, como tradicionalmente fizeram antes. Que os dirigentes do PS, ofuscados pelas pressões eleitorais, sejam incapazes de perceber a mudança necessária não surpreende. Mas que tantos portugueses, que estão a pagar e a sofrer os exageros, não percebam e não exijam mais seriedade aos partidos do arco da governação custa a entender; porque se não o fizerem, dentro de poucos anos o país pode voltar de novo à bancarrota, e já se sabe quem mais vai sofrer com ela – os que não têm voz nos media para protestar.
Esta crise é uma oportunidade para as elites portuguesas* revelarem um papel de liderança. Porém, se considerarmos as posições públicas das elites condensadas em torno da reforma dos colégios militares, que podiam dar o exemplo de redução de despesas públicas (até porque não são desfavorecidos, em geral) e que não desistem de depender do Estado, fica uma sensação de “orquestra do Titanic”.
Penso que a nossa única esperança é que a União Europeia trave os desvarios despesistas antes de eles serem graves. Mas, a avaliar pela falta de fiscalização do passado e pela tendência de tentar qualquer coisa que pareça não ter custos, duvido da eficácia desse mecanismo e temo que mais facilmente emerja um consenso nacional para deixar o Euro do que para equilibrar as contas públicas.
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* Definidas num sentido descritivo (dirigentes e titulares de posições de topo no Estado e nas demais organizações, incluindo empresas) e não normativo (os melhores), porque raramente coincidirão.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Distorção Mediática


Como dizia no meu último post, os media dão eco a tudo o que pareça justificar que se deve acabar com a austeridade; tudo o que justifique a necessidade ou os bons resultados da austeridade dá-se nota breve e não se repete. Terão medo que se torne viral?

E ao mesmo tempo que os media pressionam pelo fim da austeridade, apontam a subida da dívida pública como uma falha do Governo (que é consequência directa do “mais tempo e mais dinheiro” que andaram a “pregar” mas de que já se esqueceram), sugerindo que a solução é o crescimento económico, porque dispensa os dolorosos cortes na despesa. Os media adoram as teses rápidas e simples (simplistas). É assim que moldam as imagens de alguns políticos, que depois “levam ao colo” (ver Sócrates, António Costa e Pires de Lima); mas também é assim que destroem os que têm ilusões de manipular os media. Porém, a superficialidade – bem ao gosto de demasiados cidadãos, que querem “esperança” e depois se queixam de serem manipulados ou enganados – pouco tem a ver com a substância das coisas.

Vejamos alguns exemplos representativos.
Estivemos mais de 10 anos com crescimento anémico, com o IVA da restauração baixo e com bom consumo interno. Por que razão o resultado será melhor se voltarmos ao modelo anterior? A baixa das taxas dos impostos aumenta imediatamente o défice, sem se saber se, e quando, o consumo cresce e produz mais receitas em volume do que a perda por baixa das taxas. Mas como uma deve subir e a outra descer, há quem ache que são iguais e se compensam, logo. E se correr mal, podem sempre criticar o governo por ter falhado…
Além disso, o aumento do consumo interno vai aumentar as importações, sem aumentar as exportações, e desequilibrar a balança externa; e voltamos ao endividamento externo. Mas ele não se “vê”, pelo que os media pretendem que não é um “problema das pessoas”… Será que o vírus da gripe é um “problema das pessoas”?…
 
A promoção de políticos pelos media é outro caso relevante. Por exemplo, Pires de Lima é tido como uma excelente escolha para ministro da economia por ser um bom gestor. Um ministro concebe, dirige e controla políticas públicas, o que exige um conhecimento profundo do Estado; um ministro da economia precisa de perceber bem como o Estado actua, e como deve actuar, na economia – mas os gestores de empresas raramente percebem a natureza e funcionamento do Estado e tendem a desprezá-lo. Paulo Macedo foi uma boa excepção. Veremos se há mais. Mas não custará a alguns media exaltarem as más notícias por mais alguns meses, para que pareça credível que foi um ou outro ministro a conseguir o fim da recessão.
 
Outro caso é a ideia de que Portugal fica melhor fora do Euro. Nem quem defende a saída, a defende para já. Nos media, em geral, a saída do Euro merece simpatia, pois o facilitismo atrai mais audiências – ficar no Euro implica controlo de despesas e partilha de soberania, isto é, dá trabalho. E corre a ideia de que fora do Euro não sofreríamos crises desta gravidade. Como se Portugal não tivesse tido duas graves crises de endividamento externo em 1977 e 1983, e ainda nem se sonhava com o Euro…
 
Mais um: a carta de demissão de Vitor Gaspar. Numerosos comentadores, e jornalistas nessa posição, andam a dizer que Gaspar reconheceu o falhanço da sua política e logo concluem que o Governo devia mudar de política. Gaspar fez considerações infelizes e desnecessárias sobre liderança, mas não escreveu nada que indique que a sua política falhou. Diz, sim, que por ter falhado as previsões perdeu credibilidade, a qual é indispensável na nova fase, de orientação explícita para o crescimento; e que esta fase é possível por a austeridade ter funcionado. É óbvio que falhar previsões não significa falhar uma política; só não falha previsões quem não as faz e os erros das previsões devem-se sobretudo à alteração de pressupostos que estão fora do controlo de quem dirigiu ou executou a política. Todas as pessoas podem perceber isto; mas há algumas que não fizeram esforço para perceber (nem para perceber como se fazem previsões), e outras têm uma agenda na qual não encaixam os factos.
 
E ainda outro: se a ministra Maria Albuquerque mentiu a respeito dos “swap”. Ouvi por inteiro as declarações de Gaspar e de Maria Albuquerque, por várias vezes, e aquilo que afirmam é que de "swaps" em geral, e de "swaps" nas empresas públicas, há muito que se ouvia falar; o que o Governo de Sócrates não disse foi a situação em concreto dos contratos de "swap" das empresas públicas portuguesas em Jun-2011. Por isso, Teixeira dos Santos pediu um relatório à IGF que só esteve pronto em Jul-2011; e nem este explicava todas as implicações em concreto dos contratos. Muitos, sem conhecerem o problema em concreto, dizem que o Governo levou tempo a mais; reconhecem, implicitamente, que o problema está a ser resolvido, mas estão, na prática, a branquear os três factos mais relevantes: o Governo de Sócrates deixou as empresas públicas sem supervisão nesta matéria; não conhecia a situação concreta em Jun-2011; e, o pior de todos, não fez nada para o resolver. E atribuem igual culpa a ambos os governos…
 
Por fim, os media querem despesas públicas elevadas e impostos baixos. Claro que isso é bom para as audiências e muitas pessoas acreditam que é possível só por alguém o dizer no espaço público – e depois queixam-se de serem enganados pelos políticos em campanha eleitoral… Quem quer menos impostos tem de aceitar mais baixas despesas, pelo menos enquanto o crescimento económico não superar 2-3%. Até lá, há que cortar despesas, porque só assim se reduz o défice e a dívida pública pára de crescer. Mas é claro que os media acham que perdem audiências se defenderem cortes nas despesas; defender coisas que soam bem às pessoas, ainda que sejam opostas e mutuamente exclusivas, e estar contra o Governo, é mais popular e não prejudica as audiências. Muitas pessoas não querem perceber isto…
Este caso revela um dos problemas das modernas sociedades democráticas: os governos que procuram soluções equilibradas entre interesses divergentes acabam por ser criticados por uns e outros, pois nenhuma das partes vê no compromisso o que defendia à partida, e porque as partes esperam que os governos lhes dêem tudo o que elas querem. A conclusão dos media (superficial, como é de prever) é que os governos falharam. A seriedade exige que se avalie até que ponto cada parte viu as suas pretensões satisfeitas e que críticas duma parte se dirigem, de facto, à outra parte. Claro que isto obriga a investigar; dá trabalho. Por vezes, os jornalistas pedem apreciações a especialistas, mas nas entrevistas balizam-nas em respostas curtas e linguagem simplista – “para as pessoas perceberem”… – em directo, ou em peças editadas que se resumem a “sound bites” ou pouco mais.
Depois, muitos admiram-se por os políticos usarem linguagem simplista e manipuladora. Que se pode esperar dos deputados em debates no plenário ou nas comissões, senão que dêem o seu melhor por produzir “sound bites” para telejornais e capas de jornais? Não é isso que os media e as suas bases de apoiantes lhes “pedem”? E é isso que o resto do país procura e quer?
 
Claro que há mais casos como os referidos, com um elemento comum: alguém se recorda de jornalistas e comentadores que tentam adivinhar ou prever eventos futuros admitirem os erros quando (frequentemente) falharam? E no entanto são ligeiros a recomendar demissões…
 
Com a crise das TVs, não pode surpreender a proliferação (“praga”?) de comentários políticos, mais baratos do que outros programas, pois a exibição na TV já é suficiente remuneração para muitos comentadores. Poucos deles têm suficiente capacidade teórica e analítica para perceber a realidade que comentam, e nada mais fazem do que integrar a intriga e a “espuma” com que se cruzam ou que ouvem. Bastantes cobrem uma agenda pessoal ou de grupo com a capa do comentário político. Por vezes, surgem como jornalistas-especialistas na matéria, pretendendo com isso dar uma ideia de credibilidade – quando apenas estão a “fazer opinião”. A falta de fundamentação com que falam é confrangedora; mas são os “sound bites” (às vezes, o humor) e não a clareza de raciocínio ou a fundamentação que lhes asseguram a presença nas TVs.
 
Nalguns casos, os comentadores ajudam a perceber muitas coisas. Por exemplo, ouvir Manuela Ferreira Leite, ministra das Finanças de 2002 a 2004, ajuda a perceber por que razão o país não piorou então – mas também não melhorou nem mudou o rumo.
Pelo contrário, penso que há sempre algo de relevante a aprender com António Costa Pinto, Joaquim Aguiar e João César das Neves. Ouço Marcelo Rebelo de Sousa, porque é importante saber qual é a agenda dele; ou seja, o que pensa e diz um muito provável candidato a PR.
 
Todos os comentadores têm liberdade de expressão e as TVs liberdade de escolha. E eu tenho liberdade, que exercito com assiduidade, de ignorar a larga maioria, como talvez faça a maioria dos portugueses, deixando-os a falar uns para os outros e a manipular quem o queira ser.